Siga-me no Facebook Siga-me no Instagram Siga-me no Twitter Siga-me no YouTube
Site oficial de Nuno Nepomuceno.

ARTIGO DE OPINIÃO


A estranha calma de Istambul.


«Já soube do atentado?»

O condutor, o mesmo homem de barba por fazer que me transportara até ao hotel no dia em que eu cheguei, interpelou-me rapidamente quando entrei para o interior do
shuttle. Virou-se para a frente, agarrou o volante e intrometeu-se no trânsito da cidade. O destino era o aeroporto de Atatürk.

Regressava a Portugal após uma curta estadia em Istambul e a minha última manhã em solo turco ficara marcada pela visão dos helicópteros militares que patrulhavam o céu da antiga capital otomana. Lia-se
Polis na fuselagem branca e azul e, tal como a inscrição, a missão era clara. O PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, acabara de executar mais um ataque. O alvo tinha sido a Avenida Istiklâl, um símbolo da modernidade do país, a qual havia visitado há apenas um dia. Várias pessoas estavam feridas, algumas mortas. A atmosfera efervescente da principal via comercial da cidade com que me deparei na altura perdera o brilho — vestira-se de luto.

Viajei para Istambul na fase final da minha pesquisa. Encontrava-me prestes a iniciar a redação de
A Célula Adormecida, o meu último romance. Passara os meses anteriores a conhecer melhor a génese do autoproclamado Estado Islâmico, o porquê de um déspota ter mergulhado a Síria num cataclismo humanitário e a compreender as origens do atual êxodo de refugiados e, sobretudo, a que futuro nos poderá a todos conduzir. Mas necessitava de algo mais real, de andar no meio dos cidadãos, sentir a fé que vi na Mesquita Süleymaniye e deixar-me deslumbrar por algo tão simples como o sol a cair sobre o Mar de Marmára, ao ponto de ter desejado saber pintar só para poder imortalizar aquela paisagem a aguarelas. Não imaginava que antes de escrever um livro sobre um ataque terrorista eu próprio me veria muito perto de um.

«Já soube do atentado?», insistiu o condutor, enquanto avançávamos por entre os outros automóveis.

«Sim», deixei cair, com pouca vontade. Sentia um aperto no estômago, não por ter ficado assustado, mas devido a uma qualquer indisposição.

Assim continuámos o diálogo, ele mais falador do que eu. Explicou-me algumas coisas, entre as quais as pretensões curdas, mas eu não o ouvia. Refletia sobre o meu futuro livro e na forma como haveria de abordar a narrativa.

Dias antes sonhara com explosões e o pânico coletivo. Mas à medida que o trânsito fluía e passávamos pelas pessoas, observava como se mantinham entretidas nos seus afazeres quotidianos, indiferentes ao recente ataque. E foi aí que tomei uma decisão. Talvez A Célula Adormecida merecesse uma outra abordagem. Aquela que se faz quando se constata a estranha calma daqueles que convivem frequentemente com um atentado.