Siga-me no Facebook Siga-me no Instagram Siga-me no Twitter Siga-me no YouTube
Site oficial de Nuno Nepomuceno.

CRÓNICA


Como fazer um amigo instantâneo. O guia prático.


Todos vós que estão a começar a ler esta crónica sabem bem que nos voos de longo curso (e mesmo nos de médio), temos tendência a desenvolver a chamada “amizade instantânea”. Mesmo que não o tenham vivido na primeira pessoa, decerto que já assistiram a tal fenómeno, quanto mais não seja, na televisão ou no cinema, como é o caso do filme
The French Kiss: O Beijo, com Meg Ryan e Kevin Kline, onde dois estranhos sentados em lugares contíguos se conhecem e começam a falar acerca das suas vidas e dos seus maiores receios mais depressa do que uma aspirina se dissolve num copo de água. Esta amizade instantânea não é apenas uma distração encontrada por muitos para se abstraírem do medo de voar, mas também um método inteligente de se libertarem de tudo aquilo que lhes vai na alma. No fim, o mais provável é que nunca venham a rever estas pessoas e, logo, a “partilha” não terá tido qualquer importância.

Comecemos. Nos bons velhos tempos, os amigos instantâneos podiam ser facilmente detetados na sala de embarque de acordo com as preferências e gostos pessoais de cada um. Bastar-lhe-ia apenas selecioná-lo e, uma vez no interior do avião, sentar-se mesmo ao lado. Atualmente, os oficiais de check-in tornam este processo bem mais complicado, sendo muito difícil conseguir um lugar ao lado de esta ou daquela pessoa. Complicado, sim. Impossível, não! Ora preste atenção.

Todos os seus companheiros de viagem são potenciais amigos instantâneos. Perca um momento. Observe e escolha. Ele ou ela são o seu alvo!

O primeiro obstáculo é o comissário de terra, aqueles meninos e meninas de ar insensível e maquilhagem em excesso que mais parecem pouco ou nada importar-se com o lugar em que irá sentado. Parte do sucesso da missão passa por eles. E nada melhor do que um pouco de charme.

O previdente toque de gel no cabelo, um fato Armani (ou algo semelhante – acredite em mim quando lho digo: ninguém vai reparar na diferença), um casaco comprido a cair-lhe garbosamente sobre o braço, e aquele ar de
Martini Man devem ser mais do que suficientes para convencer a rapariga que lhe está a fazer o check-in. Se o leitor for uma mulher, não se preocupe. Experimente qualquer coisa do género «Posso sentar-me ao pé daquele meu amigo que está ali? Não falamos há décadas!». Mas nunca, nunca em ocasião alguma, lhe revele as suas verdadeiras intenções. Se a tradicional irmandade feminina funcionar como sempre, o mais certo é que ela acabe por se registar no voo e roubar-lhe o seu homem!

E como vê, é simples. Agora, o seu amigo instantâneo está pronto a ser conquistado. Contudo, caso algo falhe durante o
check-in, então... bom, então, coragem, porque está na altura de passar ao plano B.

O plano B é muito simples! Apenas necessita de um pouco de teatro. Mas se a Sofia Aparício o consegue fazer, porque não você?

Apenas terá de fingir que algo não está bem consigo. Enjoos ou doenças, não aconselho, já que o seu amigo instantâneo rapidamente poderá desistir do voo só pela mera perspetiva de acabar com alguém a vomitar-lhe para o colo. Experimente uma abordagem mais subtil. Por exemplo, algumas tonturas. Quer melhor desculpa para se atirar para o primeiro lugar disponível e nunca mais de lá sair? Afinal, está tão mal que não vai conseguir sequer chegar ao seu e.... aleluia, está finalmente lado a lado com o seu alvo.

Agora, atingido o sucesso da missão, depende apenas de si para começar a conhecer o seu amigo instantâneo. Use um pouco de encanto e criatividade, por exemplo. Se o clima lhe parecer frio, experimente aparentar alguma tensão. Os amigos instantâneos adoram salvar a vida de um jovem cavalheiro ou de uma donzela em perigo, colocando a bom uso a sua bonomia e magnetismo naturais para os fazer esquecer de que, na realidade, se encontram a quilómetros e quilómetros de altura, com um mar cheio de tubarões à espera deles lá em baixo. E pronto, fale, fale e fale. A sua vida, os locais que já visitou, ou até a razão pela qual se encontra a voar até ao destino, tudo isto pode ser o início de uma bonita conversa e amizade instantânea duradouras.

Esta teoria pode ser um pouco perigosa, aviso-os. Sobretudo, se forem daquele tipo de pessoas que se entusiasmam e acabam por contar mais acerca das vossas vidas do que devem. No entanto, isto também pode ser uma vantagem. Podem sempre dizer o que lhes apetecer, confessarem até os vossos segredos mais negros, porque provavelmente nunca mais irão ver o vosso amigo instantâneo. E mesmo que tal venha a ocorrer, há sempre uma excelente desculpa: «Não sei o que me acontece quando voo. Fico tão tenso que a minha cabeça inventa as coisas mais estranhas».