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Kimi | Site oficial de Nuno Nepomuceno.

Socorro, sou dono de um labrador!

Escrevo esta entrada com o queixo dorido e o nariz ferido. Tirei alguns dias para descansar e fui à praia numa destas tardes. Quando cheguei a casa, o meu labrador de dez meses resolveu saudar-me de uma forma bastante peculiar. Encontrava-se à minha espera, ordeiramente sentado à porta de sacada da sala, muito compenetrado, a ver quando é que eu tinha a ousadia de me aproximar. E assim foi. Abri a janela e baixei-me para lhe fazer uma festa. Não sei porque é que todos nós temos esta tendência, a de lhes afagar a cabeça e brincar com as orelhas, mas julgo cada vez mais que se trata de uma arma escondida que os cães reservam para momentos especiais, como o que descrevo a seguir, em que resolvem demonstrar toda a felicidade que sentem ao ver-nos chegar a casa depois de algumas horas de ausência. Baixei-me, de mão esticada repleta de ternura em direção ao canídeo, e fui cumprimentado por uma valente cabeçada no queixo. Ainda estava a recuperar do golpe e eis que ele me atingiu com um poderoso gancho de esquerda, dando-me uma pantufada no focinho.

Tem sido árdua, a tarefa de educar este jovem labrador. Logo eu, que gosto tanto tanto de ordem e sossego. Vivo numa vivenda fora da cidade com um pequeno jardim, que resolvi partilhar com o senhor cachorro. Acordo de manhã e deparo-me com a rega gota a gota desfeita em fanicos. É o meu novo
hobby, pacientemente voltar a ligar os tubos todos os dias. Não é que eu me queixe. Ele até se senta, dá a pata, rebola, mas, sobretudo, pula. Salta e pula como se tivesse molas nos pés, correndo atrás de mim, agarrando-se às minhas pernas, só para eu ficar a brincar mais um pouco com ele. Meu Deus, alguém dê um xanax ao cão, que ele faz aquilo que quer de mim.

Um destes dias, levei-o a passear à rua, coisa a que tenho procurado habituá-lo. Disseram-me que é saudável, tanto para ele, como para mim. Logo eu, que ultimamente, o único desporto que tenho disponibilidade para praticar é o do levantamento do garfo. Mas pronto, lá fui eu, de trela na mão, com o senhor cachorro muito direito, a
snifar tudo o que era flor, a mijar em todos os sítios e mais alguns. A sério, será que aquela bexiga não tem fim?

Entretanto, apareceu um casal de vizinhos com o filho pequeno pela mão. «Oh, que lindo», disse a mãe. «O gajo está mesmo giro», acrescentou o pai. «Olha, Pedro, faz-lhe uma festinha.» Orgulhoso do meu rapaz, cândido, lá resolvi aceder e aproximei-me com cuidado, o cão bem preso pela trela. Não é muito boa política agredir as crianças dos vizinhos. E de facto, confirmou-se. O Kimi começou a saltar, o puto assustou-se, e eu acabei no chão, estirado sobre o alcatrão, enrolado na trela do senhor labrador, que, ainda por cima, teve o desplante de se deitar ao meu lado, enquanto abanava o rabo em frente à minha cara e punha a língua de fora. Digo-vos, não é uma coisa agradável, o bafo de um cão deste tamanho.

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