Siga-me no Facebook Siga-me no Instagram Siga-me no Twitter Siga-me no YouTube
Site oficial de Nuno Nepomuceno.


Conto «A Cidade», incluído na coletânea de autores
Desassossego da Liberdade, inspirado no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa.


Sinopse:

Desassossego da Liberdade
«A Cidade», por Nuno Nepomuceno.

Sentado numa praça, um homem assiste à vida quotidiana de Lisboa. Uma jovem religiosa, um casal distante, um político de carreira e até uma atriz famosa, diversos homens e mulheres, meras pessoas comuns entretidas nos seus afazeres diários, desfilam perante ele. Mas aquilo que apenas parece ser uma mera representação da sociedade contemporânea, cedo revela uma outra dimensão bem mais inesperada. E é então que António se vê face a face com um velho conhecido que o faz reviver os erros do seu próprio passado.

Inspirado no
Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, homenagem aos poetas populares que em tempos idos encheram o Rossio de magia, «A Cidade» aborda temas como a crítica social e o falso moralismo. Um conto alegre, despretensioso, ainda assim escrito de forma acutilante, e que procura questionar o inquietante conceito que atualmente todos nós temos da liberdade.


Excerto

«Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou cafés em que, sobre uma loja com feitio de tasca decente, ergue-se uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de terra desertificada. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco povoadas, é frequente encontrarem-se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes da vida.

O desejo de sossego e a conveniência de preços levaram-me, num período da minha vida, a ser frequente numa sobreloja dessas. Sucedia que, quando calhava almoçar pelas doze horas, quase sempre encontrava um indivíduo cujo aspecto, não me interessando numa primeira instância, pouco a pouco passou a interessar-me.

Foi exatamente num desses dias, fazia sol lá fora e a algazarra ainda ia pequena lá dentro, que reparei que tal sujeito me seguia. Assomei-me à porta, fiz-me à calçada, e comecei a andar por entre os turistas felizes da cidade.

Metros atrás, de roupas puídas e andar andrajoso, António, assim percebi em tempos idos que ele se chamava, escondia-se e aparecia, encoberto pelas ombreiras sombrias das portas disfarçadas. A Rua dos Douradores, antigo passeio dos sonhos de um poeta imortalizado, estava fresca e quente, tudo ao mesmo tempo, iluminada a espaços por um sol distante que espreitava através das frestas de um ou outro prédio antigo degradado.

[…]

Sorri a espasmos, deliciado pelas figuras que por ali deambulavam. Sentado no chão com as costas de encontro a uma das fontes gémeas que guardavam o largo, um rapazola de barba antiga e espírito ausente tocava concertina com um ar nitidamente desinteressado. Embalada pelo vento, a melodia ia e vinha, ouvida de perto por um espetador atento. Com a base cortada de uma garrafa de plástico presa à boca por um cordel improvisado, um cãozito franzino e de semblante agastado, gemia ou gania, cheio de esperteza, a cobiçar as moedas que lhe iam enchendo o saco.

Rodeado de outros tantos olhares incautos, um sujeito parado, como uma estátua de bronze e para sempre mortificado, segurava um ramo de cravos, à espreita de uns trocos, atenção, ou algo mais, independentemente do significado. Pueris e alegres, duas jovens turistas do tipo arejado passaram por ele e gritaram, assustadas, assim que o homem as viu e desfez a pose, sorrindo-lhes e oferecendo-lhes as flores, subitamente agradado.

Divertido, continuei com o meu gelado, distraído pela cidade que desfilava sobre a calçada velada lá bem no alto por D. Pedro IV. Mas o meu bem-estar ou condição simples de disposição cedo se desvaneceu ao reparar em António, escondido ou aparecido ao longe, escudado pelos carros que passavam ao largo.

Resisti à tentação e deixei-me ficar sentado, crente de que deveria ser só mais um pobre coitado. Até que um papel entregue em mão me prendeu a atenção e me foi oferecido com grande aparato.»

Disponível em qualquer livraria. Encomende-o online na loja oficial.


still2desass