Letras Soltas (ou a crónica de uma manhã passada na PJ de Lisboa)

Saí da boca do estacionamento e cheguei à superfície. Uma aragem fria, mas renovada, deu-me as boas-vindas em nome da cidade e acompanhou-me ao longo das ruas. Pessoas e carros cruzavam-se comigo à medida que progredia ao longo do passeio molhado. Caíra mais um aguaceiro.

Com um saco cheio de livros na mão, compus melhor a mochila que transportava às costas e estiquei o pescoço enquanto caminhava. Acordara direito que nem um prego, quase sem ser capaz de mexer-me. As horas que passo sentado doem-me cada vez mais, têm repercussões que um dia sei que irei lamentar, e nem sequer o emplastro que aplicara antes de sair de casa conseguia ajudar-me naquela manhã cinzenta e fria, pouco típica do mês de março.

Vi as horas no meu relógio e levantei a cabeça, olhando em frente, atento. Estava ligeiramente atrasado; era altura de acelerar ligeiramente o passo. Quanto à dor, pouco importava. O melhor que podia fazer era ignorá-la. Tinha de me despachar. A Polícia Judiciária de Lisboa aguardava por mim.

Bati no vidro da guarita do guarda prisional e disse-lhe adeus, tentando parecer simpático. Na verdade, não sabia muito bem como comportar-me. Estava numa prisão, ou melhor, no Estabelecimento Prisional Integrado da PJ de Lisboa, aquilo a que os jornalistas chamam dos «calabouços» da Judiciária. As pessoas que lá estavam presas não deveriam andar muito contentes. Deveria eu sorrir?

Depois de entregar o meu Cartão do Cidadão e o meu telemóvel, passei num raio-X e fui conduzido através de alguns corredores. Fui primeiro apresentado à diretora das instalações e depois à pessoa responsável pelo convite que me tinham feito — o de participar no Letras Soltas, o clube de leitura dos reclusos, a propósito do meu novo livro, Pecados Santos.

«Que tipo de crimes é que eles cometeram»?, perguntei eu à Elisabete, enquanto aguardava que fossem buscar as pessoas.

«Delitos menores, como furtos e tráfico», respondeu-me ela, com um sorriso aberto.

Afinal, podia-se fazê-lo ali dentro. Aliás, ao mesmo tempo que acenava com a cabeça, dei-me conta de um facto. O ambiente era muito mais simpático e descontraído do que imaginara.

Os reclusos chegaram e sentaram-se ordeiramente e em silêncio. Estavam vestidos de forma casual, com roupas que julguei serem próprias. O Estabelecimento Prisional Integrado na PJ de Lisboa não é um local definitivo. Aqueles homens estão ali apenas de forma temporária, enquanto aguardam que seja formalizada a acusação, lida a sentença e transferidos para outra prisão, ou soltos, pois alguns deles também podem estar inocentes.

Olhei para eles sem saber muito bem como começar. Preparara uma apresentação multimédia com vídeos das entrevistas que tenho dado sobre os meus livros e levara comigo alguns dos meus romances preferidos. Deixei-os escolher o que queriam fazer. Ver a apresentação ou falar sobre livros? Decidimos que faríamos um pouco de tudo.

Acho que o que mais me surpreendeu no encontro, além do ambiente descontraído, foram as perguntas. A minha assistência era composta por cerca de 30 homens, os reclusos que se haviam inscrito para me ouvir. Todos eles tinham lido Pecados Santos. Aliás, segundo o que me explicaram depois, o interesse pelo livro foi tanto, que chegou a ser assunto das conversas do pátio («Em que parte vais?», «Quem é que achas que é o assassino?», etc…). Mas acho que o momento completamente inesperado chegou quase no fim. Estava eu a indagar se existiam mais questões e a preparar-me para apresentar-lhes os meus livros preferidos, quando um dos reclusos meteu a mão no interior do casaco e sacou de lá um caderno. Apresentou-se. Era licenciado em Filosofia.

E a seguir leu em voz alta a crítica que tinha redigido acerca do meu livro.

Eu, à entrada do edifício da PJ de Lisboa

O desenho oferecido pelos reclusos inspirado num dos capítulos do livro

2 Comentários

  • Vitor Publicado 30 de Março de 2018 14:16

    Adorei….pena que não inclua a crítica do teclado.

    • Nuno Nepomuceno Publicado 2 de Abril de 2018 16:10

      Olá, Vítor.

      Não apontei o que ele leu, mas destacou o enredo e no geral gostou bastante. Apenas referiu uma gralha, que já sabia existir. O saldo foi positivo. 😉

      Um abraço.

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