Muitas pessoas compram um livro só porque é de um autor nórdico

Entrevista ao magazine cultural Et(h)er dos Dias. Por Carlos Almeida.

Dizias numa entrevista que, de certa forma, tudo começou pela mão da tua mãe, quando ela te levava à biblioteca a ler, e como isso veio a influenciar a tua vontade de escrever. Sentes que os nossos primogénitos são também, direta ou indiretamente, as primeiras influências de um escritor? E nessas primeiras experiências de leitura, ela teve alguma influência?

Nós somos seres sociais. Necessitamos de interagir uns com os outros e os relacionamentos que mantemos ao longo da nossa infância e adolescência condicionam os comportamentos que manifestamos em adultos. A minha mãe é a grande responsável pelos hábitos de leitura que adquiri. Cresci numa aldeia, não tinha muitos brinquedos ou outras crianças com as quais me ocupar, e ela acompanhava-me à biblioteca itinerante que passava por lá quinzenalmente. O motorista não me deixava escolher os livros que queria, o que me deixava furioso, mas a minha mãe nunca o fez, apesar de ainda hoje lermos géneros muito diferentes. Aliás, dos meus cinco livros, ela apenas gosta de um.

Referiste que o teu despertar para a escrita foi quando quiseste perceber e saber o que era estar do outro lado do livro. Sentes que um escritor é uma espécie de Deus, um criador que exerce um poder absoluto na história e nas personagens?

Não. Eu sou tão responsável pelo destino das minhas personagens quanto elas próprias. Já tive casos de personagens que ganharam um protagonismo que não planeara de início, por exemplo, «forçando-me» a dar-lhes maior destaque, ou outras das quais me fartei e que acabei por cortar do enredo. O meu processo criativo é bastante dinâmico. Estabeleço pontos de passagem, referências, mas raramente tenho todas as certezas no início. Gosto de deixar espaço para a espontaneidade. Julgo ser mesmo nesses momentos de criatividade pura que sou melhor.

E como vês e te sentes como escritor, na influência que podes ter na sociedade? Os teus livros abordam mais do que simples thrillers, logo o que procuras nas tuas histórias que possa vir a deixar algo no leitor?

A mensagem que o livro transmite é importante, sim. A meu ver, é uma forma de dar conteúdo ao enredo, para além de, à medida que vai sendo trabalhada, permitir também tornar as personagens mais ricas. Mas acredito que o livro deve ser equilibrado. É preciso oferecer um pouco de tudo ao leitor, incluindo envolvimento e evasão. Se ambas as dimensões da história forem bem conseguidas, o livro será naturalmente recordado pelos leitores.

Pelo que já li, tu tens muita preocupação em estar bem documentado para criar, até pelo teu género literário. Podes partilhar com o mundo et(h)eriano, a preparação e a forma como te organizas para escreveres um livro?

É um processo simples. Começo por ter uma ideia, um esboço muito ténue que possa orientar-me numa direção. Depois, vou à procura de algo que possa inspirar-me. As viagens são boas formas de fazê-lo, tal como procurar fotografias ou artigos de informação sobre o tema a explorar. De seguida, vem a recolha e compilação do material. É aí que começo a tomar as primeiras decisões, como quais serão as personagens, ou como irá começar ou acabar o livro, por exemplo. No fim, dedico-me à redação. Ultimamente, tenho optado por tentar isolar todos estes períodos, ou seja, só avanço para a etapa seguinte depois de terminada a anterior.

E agora as viagens. Sei que as escolhes bem para os teus livros. Por exemplo a ida à Turquia para a “Célula Adormecida”. Outros autores dentro do género literário têm muito essa preocupação, em viajar e ver de perto os locais a introduzir nas histórias. Sentes que tem de ser um imperativo para se escrever de forma geral, ou achas que certos estilos conseguem ser construídos sem essas mesmas viagens?

As viagens são a melhor forma de nos familiarizarmos com a cultura e o espaço de um local acerca do qual queremos escrever. Se tivermos a oportunidade de fazê-lo, recomendo-o. Contudo, hoje em dia, a pesquisa, documentarmo-nos, tem perdido importância. Vivemos numa sociedade apressada, em que só o imediato interessa. Mas esse simples trabalho preparatório, o de investigarmos sobre um local ou um tema, deve ser o princípio de qualquer livro, independentemente do género. Quem achar que poderá omiti-lo, estará a incorrer num erro.

E dessas viagens, tens algum relato mais curioso que gostavas de partilhar connosco?

Têm existido algumas peripécias peculiares, mas a mais curiosa aconteceu em Istambul, a cidade que visitei para preparar A Célula Adormecida. No dia em que regressei a Portugal comecei subitamente a receber várias mensagens de pessoas a perguntarem-me se estava bem. Ocorrera um atentado num local que tinha visitado no dia anterior, o que é exatamente a intriga central do livro.

E ler? Muito se fala que um escritor deve ler bastante. Partilhas da mesma opinião, ou achas que mais do que ler a paixão pela escrita e pela construção de histórias, deve reger os princípios de um escritor?

Considero que a leitura é importante, sobretudo, enquanto estamos a formar a nossa própria voz. Se formos cuidadosos nas leituras que fazemos, podemos aprender imenso, pois tomamos contacto com diferentes estilos de escrita e narrativa, o que nos fará evoluir. Contudo, há que ter algum cuidado para não nos deixarmos influenciar em demasia. Mais importante do que escrever algo num género que admiramos, será transportar para o nosso trabalho a paixão e sentimento que temos pelo que fazemos. Só isso nos dará um grande livro.

Agora gostávamos que nos falasses um pouco deste teu novo livro, Pecados Santos. Quais as expectativas?

Pecados Santos já está nas livrarias há mais de dois meses. Ainda é um pouco cedo para tirar ilações definitivas, mas o livro tem correspondido às expectativas. O objetivo que eu e a minha equipa traçámos foi que servisse para cimentar a minha posição enquanto autor de referência de thrillers. Trata-se de um livro que integrou alguns tops e cuja edição eletrónica foi líder a nível nacional, o que aconteceu pela primeira vez na minha carreira. Portanto, estamos contentes com a aceitação que tem tido.

Como vês o panorama literário em Portugal?

Temos um mercado pequeno em que as pessoas não criam hábitos de leitura e não dispõem de muito dinheiro para comprar livros, o que dificulta a vida dos editores e escritores. Pensando no livro como algo que, geralmente, só é utilizado uma vez, trata-se de um produto caro. Por outro lado, também somos demasiado permissivos ao que nos chega de fora. Muitos leitores compram livros de um autor estrangeiro do qual nunca ouviram falar só porque é nórdico, por exemplo. No entanto, quando confrontados com um escritor português, dizem que não o fazem porque não o conhecem. Nós, os escritores nacionais, partimos sempre com um grande atraso em relação à concorrência externa. É como se aquilo que é feito cá dentro seja automaticamente considerado de qualidade inferior.

Tu que surges através de um prémio literário, o Note! (Os meus mais sinceros Parabéns), o que sentes sobre a divulgação de novos autores portugueses?

É cada vez mais difícil. Os novos autores necessitam de apoio, sobretudo, por parte das editoras, não só em termos de divulgação, como das condições de trabalho que lhe são oferecidas. Contudo, são raras aquelas que apostam em novas vozes, exatamente por causa das razões que expus anteriormente. Acho que deve haver um esforço mútuo. As editoras deverão proteger mais os escritores portugueses e estes novos autores devem repensar a forma como se posicionam no mercado. A renovação é muito importante, pois só ela nos fará avançar em termos culturais.

Para finalizar tenho um desafio para ti, dividido em dois:

  • – O que dirias a um jovem que não conhece os teus livros, para o convenceres a descobrir a tua escrita?

Que esperem um livro coeso, com uma história envolvente e uma escrita fácil de acompanhar. O resto terá de vir do interesse e gosto de cada um.

  • – Uma pequena lista de livros que te marcaram.

O Estranho Caso do Cão Morto, Mark Haddon;

Os Pilares da Terra, Ken Follett;

Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas;

A Ilha, Victoria Hislop;

A Mensageira, Daniel Silva,

por exemplo.

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