Capítulos curtos e personagens credíveis que viciam o leitor

«Se o terror está no meio de nós, o abandono e a descrença também. Uns, vítimas da guerra e dos flagelos humanitários que deflagram nos seus países de origem; outros, vítimas do desenraizamento ou da descrença total num sistema no qual não acreditam ou sequer se identificam. São todos vítimas. E quando existem vítimas, pairam sempre à sua volta bandos de corvos: almas negras e manipuladoras que se aproveitam da fragilidade e estranheza que ocorre naqueles que fogem para países tão diferentes do seu. É nessa fraqueza, no medo e na desconfiança, que se instalam preconceitos de ambos os lados alimentados pelo desconhecimento, bem como por muita informação enviesada e viciada.

“Um sentimento de angústia e desamparo apoderou-se-lhes do coração. Há muito que se encontravam à deriva, exaustos, deixados perdidos nas águas turvas do mar, entregues a um arbítrio que não compreendiam. Era de noite. A escuridão envolvia-os. E eles não mais acreditavam. Haviam abandonado tudo.”

A Célula Adormecida explica detalhadamente muitos destes engodos e dá imensas informações, tanto para quem quer saber mais sobre a religião muçulmana, como quem deseja ficar mais esclarecido em relação à atualidade — Síria, Islão, Daesh/ Isis. Pelo meio, um enredo muito bem conseguido, constantemente em aceleração e claro, oportunamente atual.

Nuno é capaz de informar, fazer rir, criar momentos de tensão e construir personagens credíveis acerca das quais queremos saber mais. Tudo isto é conseguido com capítulos curtos que viciam o leitor. Estamos sempre à espera do detalhe seguinte e da revelação determinante. Por vezes, provoca distrações intencionais, com momentos de romance ou quezílias familiares, que tão bem compõem o ramalhete.

O que também complementa muito bem este livro são as “visitas” a Istambul, uma das cidades que mais gostei de conhecer. A descrição do professor a contemplar o estreito de Bósforo na colina que alberga a imponente mesquita Suleymaniye levou-me de volta a essa cidade cheia de contrastes, onde navegar nas margens do canal dá-nos bem a dimensão tríptica da cidade.»

Cris Rodrigues

efeitodoslivros.blogspot.pt

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