Entrevista em discurso direto ao Luso Jornal e Rádio Alfa de Paris
«Pecados Santos» é o novo romance de Nuno Nepomuceno, autor de policiais e thrillers que começou a carreira ao vencer o Prémio Literário Note!, em 2012, com o romance «O Espião Português».Seguiram-se «A Espia do Oriente» e «A Hora Solene», publicados em 2015 e, em 2016, lançou «A Célula Adormecida», o primeiro thriller psicológico da carreira.Neste «Pecados Santos», Nuno Nepomuceno desenha um thriller passado nas comunidades judaicas de Londres e Lisboa, locais onde ocorrem vários homicídios, todos eles recriando episódios bíblicos.

Um rabino é encontrado morto numa das mais famosas sinagogas de Londres. O corpo, disposto como num quadro renascentista, representa o sacrifício do filho de Abraão. O caso parece encerrado quando um jovem professor universitário, descendente de Portugueses e a lecionar numa das faculdades da cidade, é acusado do homicídio. Existem provas irrefutáveis contra ele e aparentemente nada poderá salvá-lo da prisão.

Sucedem-se porém outros crimes que seguem o mesmo modus operandi, recriando cenas cada vez mais macabras.

Segue-se então uma investigação que permite ao autor abordar temas relevantes do nosso tempo, tais como o antissemitismo ou o conflito israelo-palestiniano.

 

Nuno, neste teu novo romance, se comparado aos anteriores, existe um maior peso da violência psicológica e sexual. Concordas comigo?

Sim, e isso foi intencional, se bem que não existam descrições explícitas de atos sexuais ou mesmo de violência. São temas que são utilizados e que fazem parte dos arcos narrativos do livro, mas não é um livro com erotismo ou que pretenda chocar, digamos assim.

 

Mas deve-se a quê esta tua mutação no registo? Porque de facto os teus outros livros são menos transgressores…

Eu vejo a escrita como uma forma de evolução e não sou um escritor de escrever os livros todos iguais. Eu continuarei a escrever até ao momento em que achar que tenho algo de novo a acrescentar. Quando achar que cheguei à estagnação, irei parar um pouco, talvez procurar novas ideias… porque sempre que escrevo um livro, tento acrescentar algo de novo e gosto que os meus leitores estejam preparados para algo de inesperado. Foi, portanto, também por isso que acrescentei esses elementos que ainda não tinha trabalhado. Quer dizer, a violência sim, durante a trilogia já tinha trabalhado alguns capítulos com violência. Em «A Célula Adormecida» não, mas neste livro voltei a fazê-lo. Em relação ao sexo… Há quem diga que é um livro sobre sexo e morte. É um título pomposo, mas que serve muito bem o livro. Foram, no fundo, novas dimensões que eu tentei introduzir. Estou a fazer o mesmo para o livro seguinte.

 

E é notório também, Nuno, o maior peso da religião neste teu livro, o que denota um grande trabalho de estudo e pesquisa. Podemos considerar esta abordagem religiosa uma tua nova faceta enquanto escritor de policiais, mais uma evolução?

Sim, é mais uma evolução. Quando terminei a trilogia Freelancer, eu tinha várias opções em aberto…

 

Relembra-nos os romances que perfazem a trilogia Freelancer.

São «O Espião Português», «A Espia do Oriente» e «A Hora Solene». Os três primeiros, portanto… Mas estava a dizer que tinha várias opções em aberto. Poderia ter continuado naquele registo da espionagem de ação, um registo no qual me estava a dar bem. Ou poderia fazer algo diferente e foi então que resolvi começar a escrever thrillers religiosos. Não são thrillers religiosos puros… na verdade, são thrillers psicológicos com elementos de thrillers religiosos, que são o caso de «A Célula Adormecida» e de «Pecados Santos». Por exemplo, em «A Célula Adormecida» não direi que a religião é um personagem, mas a cultura islâmica é-o. Já em «Pecados Santos», o judaísmo é praticamente um personagem que nos acompanha ao longo da narrativa.

 

Vamos então falar um pouco de religião… que começa a ganhar novamente um peso enorme num mundo que se julgava, eu julgava-o, pelo menos, a caminhar para um laicismo absoluto. Temos os criacionistas cada vez mais poderosos nos EUA, um exacerbar da unidade étnico-religiosa em Israel, o Daesh no Próximo Oriente e em África… Preocupa-te este crescimento do fanatismo religioso? É por isso que o tratas neste livro?

Essa é uma preocupação que todas as pessoas devem ter. Se estivermos com atenção à atualidade, a maior parte dos problemas políticos que existem atualmente, muitos deles militares, vêm de questões religiosas que foram mal resolvidas no passado. É, por exemplo, o caso de Israel que conduziu novamente a toda a onda de violência que ocorreu agora aquando da inauguração da Embaixada dos EUA em Jerusalém. São, mais uma vez, problemas e ataques militares a acontecerem por causa de questões religiosas. A questão do Daesh também tem origens religiosas. Tem a ver, primeiro, com uma fração entre sunitas e xiitas e, segundo, com uma clivagem entre muçulmanos e cristãos. E, é verdade, apesar de o mundo ser cada vez mais laico, pelo menos no Ocidente, onde descuramos a nossa educação religiosa cada vez mais, as pessoas já não vão com tanta regularidade à igreja e não se preocupam em educar os filhos de acordo com determinado padrão. Na realidade, essas questões fraturantes acabam por se manter e, se nós analisarmos com atenção, muitas delas têm a ver com fanatismos religiosos, com problemas ancestrais que pertencem a um passado que é comum a todos nós. Porque todas aquelas figuras históricas que aparecem na Bíblia acabaram por dar, a sua descendência, origem a diversas religiões. Como é o caso de Abraão, cuja descendência deu origem a uma clivagem que gerou, de um lado, os muçulmanos, e, do outro, os judeus. E, se olharmos para trás, é isso que está na base da disputa nomeadamente sobre Jerusalém. Portanto, isto é um tema que nós temos de continuar a discutir e ao qual devemos estar sempre atentos.

 

Nuno, voltemos à literatura… Existem poucos portugueses a escrever policiais. Concordas comigo?

Sim, sim…

 

Já na Escandinávia, por exemplo, é um dos géneros mais relevantes.

É, eu acho que na Escandinávia, eles só têm um género. (risos)

 

É verdade, eu não queria ir tão longe, mas já que o disseste… (risos)

Sim, eles só conhecem mesmo o género policial… Em Portugal, existem alguns autores, mas aqueles que conseguem ter alguma força dentro do mercado são realmente muito poucos. Temos um bom exemplo que é o José Rodrigues dos Santos, embora, julgo eu, ele não se considere um autor de policiais, mas a maior parte dos livros dele são thrillers, se bem que seja um autor que, por exemplo, não possa ser comparado comigo, visto ter uma publicidade que eu não tenho. Existem mais dois ou três… Infelizmente, o Luís Miguel Rocha já faleceu. Eu sou publicado regularmente. O José Francisco Viegas publica um ou outro policial. Se houvesse mais concorrência talvez fosse mais saudável para mim e para os outros, pois tentaríamos superarmo-nos uns aos outros, mas também para o próprio público que começaria a encarar o policial como um produto nacional e não como algo que tem de vir de fora.

 

Então, Nuno, já agora e para terminarmos, sugere-nos um bom policial, português de preferência, senão ainda me vais parar aos escandinavos…

Recomendo vivamente o Luís Miguel Rocha e o seu último livro, «Resignação». É um livro que ele deixou incompleto e estou muito curioso para ler o início, para saber o que ele estava a tentar fazer. O romance foi completado por outros dois escritores. Um outro exemplo de um bom livro policial, apelando até ao público francófono, é o «A verdade sobre o caso Harry Quebert» do suíço Joël Dicker, que é um autor muito popular em França. É uma excelente história, muito bem escrita.

 

Entrevista realizada no quadro do programa O livro da semana na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris.

Publicada a 18 de junho de 2018. Disponível online e em podcast.

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