Retrato atual de um mundo em que o medo parece ser uma presença cada vez mais constante

«Uma das qualidades mais intrigantes deste livro, e diga-se desde já que não lhe faltam qualidades, é a forma como o autor consegue tecer um enredo intrigante e cheio de momentos de ação, sem nunca perder de vista o contexto mais vasto e os elementos pessoais que tornam o todo muito mais do que a simples soma das partes. E fá-lo sem sacrificar em nada a intensidade do enredo, pois as descrições e os elementos de contextualização enquadram-se com toda a naturalidade no ritmo a que a narrativa evolui.

Também particularmente impressionante é o desenvolvimento das personagens e o tipo de ligação que estas estabelecem com o leitor. Afonso, com o seu passado misterioso e a evidente necessidade de redenção, desperta de imediato a curiosidade e cada nova revelação só torna o seu percurso mais interessante. Mas, curiosamente, muitos dos momentos mais marcantes vêm de personagens mais secundárias – Sarita, Yusef, até mesmo Ibrahim – e a marca que deixam acaba por ser ainda mais forte pelo facto de não terem realmente grande influência no mundo em que se movem. Afinal, o terror faz-se do sacrifício de inocentes. São sempre os inocentes que sofrem.

E isto leva-me à que é, provavelmente, a maior qualidade de todas. Acontece, por vezes, neste género de livros, que o perigo e ação acabam por conduzir a um final demasiado limpo. Não é esse o caso aqui. Aqui, todos os acontecimentos têm consequências. Talvez se escape ao perigo, mas nunca se escapará inteiramente incólume. E, em vez de um fim limpo, feliz e sem pontas soltas, o que o autor apresenta aqui é algo de bastante mais complexo, mas também bastante mais realista na forma como aborda as muitas questões pertinentes evocadas ao longo do enredo.

Mas voltando ainda às personagens. É certo que há um pouco de tudo, desde os que despertam empatia imediata aos que comovem pela inocência, passando também pelos que não podem inspirar senão repulsa. Mas o mais interessante está nas relações e na forma como personagens que, de início, parece sumamente irritante na forma como lidam umas com as outras, acabam por surpreender ao revelar as suas melhores qualidades. Também daqui há algo a retirar: nada é perfeito. Ninguém é perfeito. E há profundidades insuspeitas no caráter de um ser humano.

Retrato atual de um mundo em que o medo parece ser uma presença cada vez mais constante, eis, pois, uma leitura viciante, mas também repleta de temas pertinentes e com um núcleo de personagens tão marcantes quanto as situações que protagonizam. Intenso, intrigante e cheio de surpresas, um livro memorável. E muito, muito, muito bom.»

Carla Ribeiro

As Leituras do Corvo

Adicionar Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os campos necessários estão marcados com *