Acabamento. A escrita de A Última Ceia. Crónica 3/ 3.

Acabamento

Eu ia roubar um quadro, lembram-se?

Hum, que ideia tão tola.

Acho que a primeira dificuldade que tive foi exatamente essa, ou seja, encontrar o meu caminho, descobrir, ao fim e ao cabo, como é que eu iria fazê-lo. Confesso que foi uma altura complicada. Passavam-me imagens mirabolantes pela cabeça. O Giampietrino é uma tela muito grande. Como é que eu iria tirá-lo da Academia Real das Artes de Londres? Permitam-me que vos faça uma pequena confissão: eu cheguei a sonhar com homens vestidos de negro, encapuzados, numa cena plena de adrenalina, enquanto trocavam uma tela por outra, pendurados na carroçaria de um camião em andamento numa autoestrada.

Sim, deitei a ideia fora.

O mais importante não era a espetacularidade. Já fizera isso antes; era a coisa mais simples de alcançar. Aquilo que eu não poderia descurar era o remate, o acabamento, aquele ato final que deixaria todos boquiabertos, a pensar que tinham sido ludibriados.

Ou, melhor do que isso, o que significaria aquela pequena centelha de dúvida que desejava introduzir estrategicamente com o único propósito de vos deixar sem chão? Pois, leram bem. É que há algo que ainda não vos disse…

Eu até consigo ser um bom ladrão.

Todavia, há outra coisa que faço ainda melhor.

Descreve-se com uma palavra: enganar-vos.

 

As frases fluíram a bom ritmo. Os meus dedos segredaram ao teclado do computador, tocando harmonias de poesia, embustes, amor e vingança. Mas, como sempre, estava atrasado. A pesquisa que fizera consumira-me demasiado tempo, sobretudo, para alguém que, desde o momento em que pela primeira vez se sentara defronte do seu editor e assumira — com um sorriso rasgado, note-se — que terminaria o livro no fim do verão, pura e simplesmente arrancara tarde de mais.

Vá lá, Nuno. Confessa-o. Tu só começas a escrever mesmo a sério quando estás debaixo de pressão.

Mas não senti isso. O que este livro me trouxe foi algo diferente.

À medida que progredia, o ritmo foi-se intensificando. O número de páginas começou a crescer, mesmo apesar do andamento tímido, ao princípio. Nem sequer fiz uma ou duas paragens a meio, como acontecera em livros anteriores, para me situar na história. Desta vez, eu fui até ao fim com um só fôlego. Continuava a ver o mesmo casal, aquele homem e aquela mulher que me tinham aparecido em Londres. Discutiam em frente às janelas de um quarto de hotel; contemplavam um quadro mítico; ou apenas urdiam planos para se atraiçoarem mutuamente.

Aqueles dois bastavam-me.

E foi assim que escrevi o meu acabamento.

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