Não seria capaz de escrever um livro sobre o roubo de um quadro há 15 anos

Entrevista aos blogue Crónicas de uma Leitora e Nova Gazeta.

Quem acompanha o Nuno pelo blogue e redes sociais percebe que faz um trabalho de pesquisa exaustivo para as suas obras. Como foi o processo desde a compilação da informação necessária até começar efectivamente a dedicar-se ao manuscrito?

A produção do livro demorou cerca de um ano, desde a altura em que comecei a desenvolver a ideia, passando pela pesquisa, a redação e terminando no trabalho de edição. O meu método de trabalho é bastante rígido, ou seja, só avanço para a fase seguinte depois de ter terminado a anterior, pois só assim é que me sinto seguro. Das quatro fases que enunciei atrás, a que demorou mais tempo foi a investigação. Durou quase seis meses. Comecei por visitar Milão, a cidade que inspirou o livro e onde decorrem os primeiros capítulos, de seguida li vários livros sobre o roubo de arte e arte em geral, e terminei com a viagem à Academia Real das Artes de Londres. Foi durante este período que esbocei o enredo.

Como é que vê o seu percurso desde O Espião Português até A Última Ceia?

Sinto-me orgulhoso do caminho que tenho feito. Não sou um escritor muito popular ou respeitado pelos meus pares, mas considero que tenho tido uma carreira honesta, alicerçada no meu trabalho, o que tem dado os seus frutos. Se compararmos O Espião Portuguêscom A Última Ceia, julgo que iremos encontrar dois livros muito diferentes. Caso pudesse voltar atrás no tempo, voltaria a escrevê-los exatamente da mesma forma, pois essa diferença não resulta da qualidade ou não de um livro ou do outro, mas essencialmente do meu amadurecimento enquanto pessoa e escritor. Comecei há quinze anos a escrever o meu primeiro livro. É natural que tenha evoluído.

Num vídeo publicado no seu site, vemos o entusiasmo do Nuno a falar ao leitor sobre esta obra. Podemos dizer que é o seu filho favorito?

Não lhe chamaria um filho, mas, sim, A Última Ceia é o meu livro preferido. Não tem tanto a ver com o enredo, mas sim com o facto de considerar que é aqui onde demonstro toda a minha maturidade narrativa e versatilidade enquanto escritor. Não seria capaz de escrever um livro sobre o roubo de um quadro há quinze anos.

 

Como é que aconteceu a transição, da ideia inicial, de escrever um thriller religioso, para um romance com um foco particular em roubo de arte?

Acho que houve um momento, que não sei dizer bem quando aconteceu, em que simplesmente me apaixonei pela obra de arte em si. Quis criar alguma coisa que fosse capaz de fazer jus ao significado e carisma de A Última Ceia. Por outro lado, pareceu-me que seria uma oportunidade de aprender e explorar os meus próprios limites. O tema dos roubos de arte tem aparecido na literatura, mas somente de modo bastante ocasional, o que fez da produção do livro uma experiência enriquecedora e desafiante.

Não estamos perante um livro que possamos inserir num só género literário. Temos romance e um thriller num só, muita ação, suspense e amor. Acha que será mais fácil chegar a mais pessoas?

Sim, concordo com essa análise. Acho que o sucesso que o livro está a ter resulta sobretudo disso. De uma forma muito simples, mais do que um thrillerA Última Ceiaé uma história de amor, um «conto» sobre a relação entre um homem e uma mulher. E esses sentimentos serão sempre universais.

O que nos pode desvendar sobre as personagens principais? O que podemos esperar deles?

É uma pergunta interessante, pois este foi exatamente um dos desafios que a redação do livro me colocou. O casal de protagonistas é muito diferente. A mulher, Sofia, evolui imenso e acho que é a personagem com que o leitor se irá identificar mais. Tem todas as caraterísticas de uma heroína tradicional, incluindo a capacidade de sobrevivência. Já Giancarlo, o homem que a seduz, não. É uma personagem estática, sobre a qual sabemos logo no início do livro ser um vilão, um ladrão de arte, o que me obrigou a trabalhar o enredo para manter a narrativa interessante. Se pensarmos bem, já sabemos mais ou menos como é que o livro acaba quando ele começa.

 

Afonso Catalão volta a ter um papel fundamental no desenrolar da ação. Como tem sido desenvolver este personagem que nos acompanha desde A Célula Adormecida?

Tem sido muito gratificante. O professor Catalão é bastante diferente do meu primeiro protagonista, a personagem principal de O Espião Portuguêse e dos restantes volumes da série. Afonso, ao ser um homem mais velho, tem outra dimensão emocional, além de um passado obscuro, negro, fruto de alguém que, apesar de ser honesto, teve de sobreviver àquilo que a vida lhe deu. É uma personagem que faz o que considera ser correto e necessário para o bem maior, mesmo que para tal tenha de quebrar algumas regras. Os últimos capítulos de A Última Ceiarevelam isso mesmo. Há mensagens subliminares nas linhas de diálogo do professor Catalão que nos deixam a pensar sobre a interpretação que devemos fazer dos factos narrados anteriormente.

A Última Ceia é uma das mais famosas obras de arte do mundo. Qual é a importância da arte na sua vida?

É um lugar-comum dizê-lo, mas, em geral, trata-se de uma inspiração. Tenho um imaginário muito visual e, por vezes, uma fotografia, uma música, ou um quadro, como foi o caso de A Última Ceia, são suficientes para projetar em mim imagens muito fortes, à volta das quais consigo mais tarde construir um romance. Até agora, foi sempre assim que o meu processo criativo começou. Por outro lado, neste momento, a minha arte, escrever, é o que me faz ultrapassar os dias.

O que gostaria de dizer a alguém que está a ler pela primeira vez uma obra sua?

Que aproveitem o espetáculo.

Fotografias @ Anna McCarthy

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