5 pormenores em A Última Ceia em que (quase) ninguém reparou.

Apesar das entrevistas que concedi e das opiniões que foram publicadas acerca de A Última Ceia, há alguns pormenores no livro que não foram referidos. Aqui fica uma resenha breve:

1 A Última Ceia é o meu primeiro livro escrito integralmente no pretérito perfeito.

Quando comecei a escrever o primeiro rascunho daquele que depois se iria tornar no meu primeiro livro, O Espião Português, parei ao fim de quatro meses. Não voltei sequer a querer abrir o documento nos 2 anos que se seguiram. Isto aconteceu por uma razão: eu não gostara do que escrevera. Portanto, quando decidi regressar, revigorado, a primeira coisa que fiz foi experimentar um tempo verbal diferente. Passei do pretérito perfeito para o presente.

Foi um ímpeto, admito-o, mas, ao mesmo tempo, algo que me deu novo fôlego. Aquelas cerca de 80 páginas que tinha escrito dois anos antes pareceram ganhar uma nova vida, reescritas, mais próximas do leitor, acontecendo ao mesmo tempo que a leitura. É algo característico deste tempo verbal – a simultaneidade da ação. Na realidade, não é bem assim. De facto, todos os livros acontecem no passado, pois estamos a narrar algo que já se sucedeu. Apesar de o saber e da dificuldade acrescida que é escrever neste tempo, decidi continuar a fazê-lo. De uma certa forma, era uma marca da minha voz. Fui algo ingénuo, já que ninguém reconheceu esse facto.

Ao longo dos meus primeiros cinco livros, independentemente de se gostar mais de um ou de outro, dos temas abordados, ou da menor ou maior aceitação que tiveram, considero que a narrativa tem ganhado complexidade. Acho inclusivamente que A Última Ceia é o apogeu deste conceito, com blocos de personagens a avançarem ao longo do tempo seguidos por regressos inesperados ao passado para acompanhar o que terá motivado aquela sucessão de acontecimentos. É por isso que o no meu 6º livro usei sempre o tempo passado, porque nele não existem duas linhas narrativas que evoluem em simultâneo, mas em tempos de ação diferentes. Foi uma experiência, que, por me dar maior liberdade, irei manter.

2 A Última Ceia contém um cameo de Pecados Santos.

Acontece em Roma, num dos aeroportos da cidade, quando uma das personagens secundárias, de coração partido, se cruza com outra, um jovem em trânsito sentado no banco. É referido que lê um livro sobre uma série de crimes violentos inspirados nos Dez Mandamentos ocorridos no seio de uma comunidade judaica. Começava com a morte de um rabino.

Também ao contrário dos dois livros que se seguiram ao último volume da trilogia Freelancer, o seu protagonista, o espião português, não reaparece fugazmente em A Última Ceia. Esse papel foi desta vez feita desempenhado pelo seu antecessor. Embora o livro seja referido vagamente quanto mais à frente a protagonista da história entra numa livraria de Londres e alguém lhe recomenda o livro de um autor português desconhecido. É caso para dizer que de uma forma ou de outra, André Marques-Smith está a tornar-se omnipresente.

3 A Última Ceia é o segundo livro meu que contém um poema.

O primeiro foi Pecados Santos. Nesse livro, Judite, uma mãe judia, declama no funeral da filha uma ode popular em sua memória.

Em A Última Ceia fui algo mais ousado. O poema que é deixado junto à moldura do primeiro quadro roubado inspira todo o livro.

4 A Última Ceia contém uma mudança de narrador.

Acontece já no fim, nos capítulos finais, após um novo salto no tempo, desta feita de um dia. O casal que protagoniza a história é visto pela última vez durante o seu próprio casamento. Quando as personagens voltam a aparecer, uma dela faleceu. O relato dos acontecimentos que vão desde um momento ao outro é feito pelo cônjuge sobrevivente quando é interrogado pela Polícia. A intenção foi introduzir alguma subjetividade. A meu ver, A Última Ceia tem um desfecho completamente aberto. O que terá realmente acontecido? Será a versão relatada completamente verdadeira? Ou terá sido inventada como álibi para um homicídio?

5 A Última Ceia divide-se nas três fases de pintura de um quadro.

A analogia não é apenas direcionada à arte, mas à construção narrativa.

Esboço é a parte do livro em que conhecemos as personagens. Todas elas são apresentadas ou referidas neste estádio inicial que termina exatamente num ponto de viragem da história e que dá o mote ao enredo principal de A Última Ceia.

Cor é onde surgem os momentos mais emotivos do livro, como o homicídio de uma das personagens e um novo assalto. Corresponde ao «grosso» da história.

Acabamento representa a conclusão dos arcos narrativos. É também nesta fase que ficamos a saber qual das duas personagens principais morre.

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