Entrevista à revista online NIT sobre O Mosteiro, O Rei Improvável
Também disponível em: https://www.nit.pt/cultura/livros/nuno-nepomuceno-lanca-romance-historico-desconhecia-que-d-joao-ii-tinha-uma-faceta-tao-negra
Por Elsa Rodrigues.
26 de janeiro de 2026
Nuno Nepomuceno lança romance histórico: “Desconhecia que D. João II tinha uma faceta tão negra”“O Rei Improvável” tem por base a incrível história da construção do Mosteiro dos Jerónimos. Chegou às livrarias a 22 de janeiro e é o primeiro de três volumes.
Apresentar D. João II despojado do mito de ser o “Príncipe Perfeito“. É esta a premissa surpreendente que serve de alicerce ao mais recente desafio literário de Nuno Nepomuceno, inspirado nos factos históricos que envolveram a construção da maior das nossas catedrais, o Mosteiro dos Jerónimos. “O Rei Improvável” chegou às livrarias na passada quinta-feira, 22 de janeiro.
Neste primeiro volume da série “O Mosteiro“, o autor explora a ascensão do monarca que transformou um reino empobrecido numa potência à beira da expansão marítima, e criou as condições para que o seu sucessor pudesse avançar com uma obra de tal envergadura.
Porém, D. João II, muitas vezes retratado como “um estratega infalível e sem mácula”, tinha também um lado sombrio, menos conhecido da maioria dos portugueses. Nepomuceno mergulhou nos abismos de uma personalidade complexa, e revelou uma mente marcada pela paranoia, pela violência política e por um sentido de sobrevivência que roça a morbidez.
Ao humanizar o monarca, o autor não lhe retira a grandeza, mas acrescenta-lhe a crueza necessária para transformar a história num thriller de fôlego, estilo em que se especializa. Na verdade, esta transição de Nepomuceno para o romance histórico representa um ponto de viragem, e não uma ruptura.
Aos 48 anos, o escritor português já conquistou uma legião de leitores com enredos onde o crime serve de espelho aos traumas da mente. Como controlador de tráfego aéreo na NAV, Nuno lida diariamente com a gestão de variáveis invisíveis e decisões de alta responsabilidade, disciplina que transpôs para a escrita, tornando as suas narrativas tão precisas quanto as rotas que monitoriza.
Se na série, protagonizada pelo psicólogo Afonso Catalão, o foco era o crime moderno, nesta nova trilogia dedicada à construção do Mosteiro dos Jerónimos, o mistério recua ao século XV. A investigação histórica, baseada em dois anos de pesquisa rigorosa, permitiu-lhe reconstruir o período em que Portugal se preparava para a expansão marítima.Contudo, em vez dos grandes feitos, Nuno expõe as falhas humanas, das mortes ordenadas por D. João II ao medo constante de perder o poder.
O reinado do “Príncipe Perfeito“ é o pano de fundo para uma narrativa de intriga política que já lhe vale comparações a Ken Follett e à saga “A Guerra dos Tronos“. Contudo, “O Rei Improvável” é outro. Foi D. Manuel I que mandou erguer “um mausoléu para os seus, uma casa grandiosa da memória, onde o luto pudesse repousar em oração”.
Com este livro, Nuno Nepomuceno promete reescrever a nossa perceção sobre a grandiosidade e as misérias do passado português. Uma epopeia que o autor revelou à NiT que deverá contar com mais volumes, — e gostaria de transformar numa série televisiva.

Durante anos, os seus livros foram sinónimo de mistério contemporâneo. Até podemos dizer que se especializou no thriller psicológico. O que o levou a escrever um romance histórico?
Foram dois motivos. Inspirado pelas minhas leituras, comecei por escrever dentro de um registo policial, mas outro dos meus géneros preferidos eram os romances históricos. E sempre tive o desejo de, um dia, escrever um. Por outro lado, sempre me agradou a ideia ou o conceito dos livros associados à construção de uma catedral. Quando terminei a última série em que estava a trabalhar, a do Afonso Catalão, resolvi que era a altura ideal para o fazer. Escolhi o Mosteiro dos Jerónimos por ser a maior das nossas catedrais.
Um grande empreendimento.
Sim, sem dúvida.
Quanto tempo pesquisou antes de efetivamente começar a escrever?
Pesquisei durante dois anos. Trabalhei essencialmente com livros e biografias de alguns reis e outras obras sobre a história de Portugal, onde procurei o período específico dos séculos XV e XVI. Depois, revi o livro durante um ano. Portanto, foram dois anos de pesquisa e um de redação, três anos no total.
Como conseguiu conciliar essa investigação histórica com o seu emprego como controlador de tráfego aéreo?
Tem sido difícil. Neste hiato de quatro anos em que estive sem publicar nenhum original, assumi novas responsabilidades dentro da empresa para a qual trabalho, a NAV. É verdade que tem sido desafiante, mas, ao mesmo tempo, dá-me bastante prazer escrever; é algo de que não quero abdicar.
Aparentemente, são duas áreas muito distintas. Encontra algum ponto de contacto entre a escrita e o seu trabalho diário?
Embora as pessoas não refiram isso como um fator determinante, penso que a escrita exige algum nível de abstração. Tanto para a profissão que tenho, como para a minha formação de base — sou licenciado em Matemática —, é fundamental ter capacidade de abstração e raciocínio espacial. A escrita de ficção implica jogar com diversas variáveis e enredos, o que exige essa mesma abstração. Embora não tenha uma formação diretamente relacionada com a escrita, a minha atividade diária acaba por me ajudar em pormenores do processo criativo.
A ideia geral é que a sua profissão é de elevada responsabilidade e muito stressante. A escrita serve como válvula de escape?
Bastante. Quando estou trabalhar num livro, reservo períodos de tempo prolongados para escrever, três ou quatro horas. Acabo por me abstrair e torna-se uma atividade relaxante, porque me esqueço das questões associadas à profissão que provocam stress.
Qual foi o facto mais curioso ou surpreendente que descobriu na sua investigação histórica, sem revelar demasiado aos leitores?
Desconhecia que D. João II, o protagonista deste primeiro volume, tinha uma faceta tão negra. Ficou conhecido para a História como o “Príncipe Perfeito”, essencialmente pela transformação que executou no País. Pegou num reino empobrecido e transformou-o numa potência à beira da expansão marítima. No entanto, ele tem um lado sombrio: foi responsável por duas mortes dentro da alta nobreza, com um grau de parentesco muito próximo. Desenvolveu uma certa paranóia pela posse do trono e medo que lhe roubassem o poder. Essa foi a minha maior surpresa.
Diria que seria uma personalidade instável em termos psicológicos?
Não. Diria que é uma personagem muito humana, porque todos nós temos pequenas contradições. Penso que este rei sai do livro muito humanizado. Provavelmente as pessoas ficarão surpreendidas com os factos que a narrativa utiliza, mas as suas próprias falhas acabam por demonstrar a sua humanidade.
“O Memorial do Convento” também é inspirado na construção de uma catedral, Mafra. Receia que os críticos ou leitores estabeleçam alguma comparação?
Não creio que isso vá acontecer. O José Saramago tem um lugar muito próprio, que é dele por direito. Não tenho como objetivo equiparar-me a ele.
Estilos à parte, é possível prever que quem gostou de “O Memorial do Convento” também terá interesse em ler “O Rei Improvável”.
Certamente que sim.
Este é o primeiro livro de uma série, um modelo comum sua bibliografia. Porque gosta tanto de escrever sagas?
Esta é a primeira vez que assumo logo no primeiro volume que vou escrever a continuação. Tem a ver com o meu processo criativo: com a evolução da carreira, foquei-me mais no desenvolvimento das personagens do que no enredo. O trabalho sobre as personagens neste livro foi tão intenso que percebi que a história da construção do Mosteiro dos Jerónimos teria de se estender por muitas páginas para ser bem contada. Como não queria escrever um livro de mil páginas, decidimos dividir em volumes. Estão previstos três, mas podem ser mais, pois o Mosteiro foi construído durante 100 anos. É um século inteiro de histórias.
Uma grande epopeia.
Sim, adequada à própria obra arquitetónica (risos).

Deixou muitos factos históricos de fora que irá abordar nos próximos volumes?
Sim. Preparei-me, durante a pesquisa, para percorrer os anos de 1479 a 1521, mas este primeiro volume, “O Rei Improvável”, decorre apenas entre 1479 e 1499, ano em que foi decidida a construção. No segundo volume irei dar um passo atrás, situando a ação entre 1480 e 1490, para que o leitor compreenda as circunstâncias que conduziram D. Manuel I ao poder. Se ele não tivesse sido rei — um acontecimento altamente improvável por ser o oitavo sobrinho de D. Afonso V —, o Mosteiro provavelmente não teria sido construído. É essa a história que quero contar: o que levou à construção e o processo das quatro empreitadas.
Dada a abrangência temporal, embora a sua obra seja ancorada na realidade, será uma saga comparável à “A Guerra dos Tronos”?
Algumas pessoas que leram cópias avançadas fizeram paralelismos precisamente com “A Guerra dos Tronos”, por causa da intriga política, tanto em Portugal como em Castela. Mas não há dragões, os leitores podem ficar descansados (risos). Essa comparação remete para a intriga política, mas creio que a melhor referência seriam os volumes de ficção histórica do Ken Follett, embora eu tenha a minha própria voz.
Gostaria ou está aberto à possibilidade de uma plataforma como a Netflix comprar os direitos para transformar a saga do Mosteiro numa série?
Sim, certamente. Acho que seria uma excelente série de televisão; tem todos os ingredientes para tal.
Que ator, português ou estrangeiro, escolheria para viver o rei D. João II?
O Lourenço Ortigão poderia dar um bom D. João II, uma vez que o livro decorre durante a juventude do rei e há semelhanças fisionómicas. Para o elenco feminino, talvez a Bárbara Branco para o papel de Leonor de Viseu, ou eventualmente, a Ana de Mendonça.
Gostaria de ser o Nuno a adaptar os seus romances ou considera a escrita de um guião completamente diferente?
Na verdade, já tenho experiência como guionista. Tenho um projeto de adaptação de “A Célula Adormecida” que aguarda entrar em produção com a SPi. Estarei disponível para participar se entenderem que tenho algo a contribuir.
É um projeto ainda em segredo ou pode adiantar mais detalhes?
É a adaptação do meu quarto livro, o primeiro volume da série Afonso Catalão. Foi um dos projetos vencedores de um concurso do Instituto de Cinema e Audiovisual que atribui financiamento à escrita. Neste momento, estamos a tentar encontrar um parceiro que se associe à SPi para levar a série a bom porto.
Quando essa possibilidade surgiu, ficou surpreendido ou imaginava que poderia vir a acontecer?
Era um desejo antigo. Gosto bastante de ficção televisiva e sempre tive essa ambição. Ainda não desisti de dar rostos às minhas personagens num ecrã.
E alguma vez pensou escrever um livro relacionado com a sua área de trabalho, o controlo de tráfego aéreo?
Não. Prefiro manter as duas coisas separadas.
“O Rei Improvável” acaba de ser lançado, mas já recebeu algum feedback?
Sim, o livro está a ser muito bem recebido. Tanto eu, como a minha editora, consideramos que esta incursão por outro género fazia todo o sentido agora. Há expectativa, claro, porque parte do meu público está habituada aos thrillers, mas, em geral, as pessoas têm acolhido o livro com simpatia e elogiado bastante a edição. As expectativas são as melhores.
O livro “O Mosteiro, O Rei Improvável”, editado pela Cultura, está disponível para compra online e nas livrarias. Custa 19,95€.