Transcrição da entrevista à revista Estante, da Fnac, sobre O Mosteiro, O Rei Improvável.
Por Tiago Matos.
Em entrevista à Estante FNAC, Nuno Nepomuceno apresenta o seu primeiro romance histórico, o livro inaugural de uma ambiciosa série centrada num dos mais agitados e complexos períodos da História de Portugal.
O Rei Improvável marca a tua estreia nos romances históricos. Zangaste-te com os thrillers?

Não propriamente. Este livro é um projeto já bastante antigo e representa mais uma incursão noutro género do que uma mudança de género.
Há algum tempo que falava com a minha editora a propósito desta transição e, uma vez que já tinha concluído a minha série anterior, Afonso Catalão, e estava a sentir algum desgaste pelo facto de ter publicado muitos thrillers de seguida num espaço curto de tempo, achei que era a altura ideal para fazer esta pequena mudança.
Não sei se vai ser uma mudança definitiva. Provavelmente não. O mais certo é que volte a escrever thrillers, porque é o género que mais gosto de trabalhar, mas a incursão nos romances históricos é uma experiência que, por enquanto, tem estado a ser muito positiva.
O teu novo livro não deixa de ser também, de certo modo, um thriller, tantas são as situações de intriga e suspense que contém. Ou seja, embora te tenhas procurado afastar temporariamente dos thrillers, se calhar os thrillers não se afastaram completamente de ti, não achas?
É porque o período histórico em que o livro se centra foi marcado por muita violência dentro do reino português, com várias mortes diretamente relacionadas com a busca pelo poder.
Dom João II, que no início do livro é príncipe e depois se torna rei através da morte do pai, acaba por desenvolver — com razão ou não, isso é algo que as pessoas terão de decidir — alguma paranoia em relação a conspirações que se vão passando no reino. E o desfecho dessas conspirações é muito violento.
O livro não é violento como alguns dos meus thrillers, mas acaba por retratar a violência decorrente dos factos históricos da altura.
Sempre gostaste de História, e em particular de História de Portugal?
Sim. Quando era mais jovem, antes de terminar a escolaridade obrigatória, cheguei a ponderar seguir História. Depois acabei por seguir Ciências Exatas e hoje sou licenciado em Matemática. Completamente diferente, eu sei. Mas era um dos meus temas de interesse.
Ao longo dos anos, não foi algo que tenha cultivado muito. Lia predominantemente thrillers, era esse o género pelo qual me sentia mais interessado, mas também mantive sempre interesse por ficção histórica. Acho, aliás, que há muitos pontos em comum entre os dois géneros.
Por outro lado, mais do que escritor de policiais, sou escritor. Portanto, sentia alguma apetência por experimentar outros géneros e áreas. Por diversificar um pouco o meu trabalho.
Entrevistei recentemente a Isabel Stilwell e ela confessou que acha que em Portugal se estuda História como se estuda o Código da Estrada, ou seja, de forma mecânica e pouco apelativa. Partilhas desta opinião?
Não estou completamente inteirado em relação ao atual programa escolar, mas percebo a afirmação da Isabel, uma vez que o que as pessoas conhecem e passam aos alunos são os factos históricos quando talvez o mais interessante até seja a forma como esses factos se interligam e o que leva a eles.
Isto também acaba por escurecer o trabalho do romancista. Por exemplo, em O Rei Improvável eu tentei respeitar sempre os factos, mas ninguém sabe como chegamos a eles, porque a documentação é muito pouca, e então, enquanto ficcionista, acabei por ser eu a preencher os espaços vazios.
Se houvesse mais documentação e fizessem chegar essa documentação aos nossos alunos, talvez a História se tornasse mais interessante.
Falemos, então, de O Rei Improvável, o primeiro livro da tua nova série, O Mosteiro. Podes apresentar-nos a premissa?
O Rei Improvável é um romance histórico que decorre entre 1479 e 1499, embora se foque principalmente nos anos de 1479 a 1483, durante a transição do reinado de Dom Afonso V para o reinado do seu filho, Dom João II. Acompanha ainda o crescimento do rei que mais tarde haverá de ordenar a construção do Mosteiro dos Jerónimos, Dom Manuel, e que nem era para ser o herdeiro do trono.
O livro começa com uma crise sucessória grave instalada no reino de Castela, com a qual Portugal está diretamente relacionado através de Dom Afonso V, o que resulta numa disputa entre os dois reinos e numa tentativa de acordo de paz.
No meio de tudo isto estão três crianças: o príncipe herdeiro do reino português, a primogénita do reino de Castela e Dom Manuel. O foco são as relações entre as personagens principais da época em torno destas três crianças e dos acordos de paz que depois levaram às Terçarias de Moura e, através de outros acontecimentos que já não são retratados neste livro, à ascensão de Dom Manuel ao poder.
Para os leitores menos versados neste período da História de Portugal, será esse contexto suficiente para mergulharem sem medos no teu livro?
Acho que sim. É um período histórico muito interessante, porque, como disseste há pouco, contém muita intriga e violência, muitas mortes e surpresas. Quem não estiver tão por dentro da História de Portugal e dos factos da altura vai ser surpreendido.
O livro tem um bocadinho de tudo: muita emoção, alguma densidade para quem procura saber mais sobre História e personagens sólidas e muito bem definidas.
Não sei se isto é surpreendente ou não, as pessoas logo o dirão, mas é um livro que acaba também por dar algum foco às personagens femininas daquele período, o que é uma perspetiva um pouco diferente, considerando que vivemos numa sociedade muito patriarcal, delineada pelos homens. É um livro que explora um pouco o universo feminino e mostra como as personagens principais da altura sobreviviam no meio da confusão política que se instalou.
Uma dessas mulheres é Joana de Trastâmara, também conhecida como “A Beltraneja”, uma figura importante da História da Península Ibérica mas que arrisco dizer que muitos portugueses não conhecem. Com que impressão ficaste em relação a ela após as tuas pesquisas?
Joana foi essencialmente utilizada como joguete político. Era descendente direta da dinastia de Trastâmara que estava no poder em Castela, mas, devido à conduta imprópria da sua mãe, acabou por cair sobre ela uma grande suspeição de que não seria filha legítima do rei Henrique IV. Por isso, quando este morreu, criou-se uma crise pela sucessão em Castela: Joana queria ser rainha, mas também havia uma meia-irmã do rei, Isabel, que se autointitulou de rainha, fortalecida pelo casamento com o herdeiro de Aragão.
Foi aqui que entrou Portugal. O rei, Dom Afonso V, era viúvo e, embora fosse tio de Joana, decidiu casar com ela para tornar legítima a pretensão dela ao trono de Castela e, em simultâneo, alicerçar a sua própria pretensão a este trono. Isto porque naquela altura cada reino queria sempre anexar o outro lado da fronteira, era uma disputa constante.
Joana acabou, então, por ser rainha de Portugal através do casamento com Dom Afonso V, ainda que este casamento nunca tenha sido reconhecido pelo Papa, visto que ela era sobrinha direta do seu marido. Em adição a isto, Joana acabou também por ser utilizada pelo príncipe João, o herdeiro do trono português, como forma de negociação. Castela queria levar Joana para lá, de modo a eliminá-la da pretensão ao trono…
Queria, inclusive, que ela casasse com um bebé, o filho de Isabel de Castela.
Exatamente, mas sem lhe dar o título de rainha. Seria para sempre princesa consorte e nunca rainha.
João, por sua vez, mantinha Joana em Portugal como um trunfo na manga, de modo a poder ameaçar Castela com a existência daquela mulher caso esse reino não cedesse às suas pretensões. Foi, aliás, por sua imposição e como forma de ceder e conseguir um acordo com Castela que Joana acabou por ser colocada num convento, o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, onde entregou a vida a Deus. Só assim se conseguiu afirmar a paz entre os dois reinos.
Portanto, embora Joana seja uma figura pouco conhecida da nossa História, teve uma importância muito grande, até porque foi através de todos estes acordos que, mais tarde, Dom Manuel acabou por chegar ao trono e ter um reinado enorme e muito próspero para Portugal.
Outra personagem feminina em destaque no teu livro é Dona Beatriz.
Dona Beatriz, a duquesa de Viseu e Beja, é ainda hoje considerada a personagem feminina mais importante da História de Portugal no século XV.
Era a esposa de Dom Fernando, que era irmão do rei, Dom Afonso V. Tendo enviuvado muito cedo, ficou sozinha a tomar conta de todo o legado do marido, designadamente o ducado — o segundo mais rico do país, atrás de Bragança — e todo o território que este administrava, incluindo territórios ultramarinos.
Também cuidava dos filhos, que haviam sido estrategicamente colocados muito perto do poder, nomeadamente através do casamento de uma filha, Dona Leonor, com o príncipe João, e da outra filha, Dona Isabel, com o duque de Bragança, que também podia ser um pretendente ao trono.
Achei, ainda assim, curiosa a forma como a escolheste retratar, na medida em que a transformaste numa figura algo manipuladora quando não é exatamente essa a imagem que temos dela.
De facto, no livro, Dona Beatriz é caracterizada quase como uma vilã, o que não corresponde aos factos históricos documentados. É algo que assumo, aliás, numa nota que deixo no final, onde explico aos leitores o que é verdade e o que alterei.
Agora… É muito curioso como é que uma mulher, viúva, conseguiu sobreviver em plena Idade Média Tardia num mundo de homens dominado por política. O que terá esta mulher feito para conseguir defender os interesses da própria família? Porque esse foi sempre o principal interesse de Beatriz de Viseu: ela defendeu a todo o custo os interesses da família e tentou sempre colocar os filhos muito próximos do poder ou com heranças muito elevadas.
Tal como referi, a sua filha, Dona Leonor, foi casada com o príncipe João. Com Dom Diogo, o seu filho mais velho (que sobreviveu), também fez tudo o que estava ao seu alcance para que fosse considerado herdeiro do pai, não fosse Dom Afonso V retirar-lhe a herança. E ainda tentou que Dom Manuel fosse herdeiro do próprio irmão. Assim, sucessivamente, ela foi construindo o seu próprio império.
Não acredito que ela tenha sido a grande vilã que o livro retrata… mas está conotada com uma das conspirações que recaíram sobre o reinado de Dom João II.
A conspiração que envolveu Dom Diogo.
Exatamente, que era filho dela.
Como é referido no livro, a certa altura Dona Beatriz foi forçada pelo rei a escrever uma carta a todos os seus apoiantes em que prescindia do seu apoio e apelava a que apoiassem o rei. Este ato de humilhação é muitas vezes interpretado como a prova de que ela teve um lado um bocadinho mais negro. No entanto, ninguém sabe exatamente qual foi, por isso eu, enquanto ficcionista, optei por retratá-la como vilã.
Até porque toda a ficção histórica necessita de alguma liberdade criativa, não é? Sei que os teus thrillers já se baseavam, por vezes, em eventos reais — lembro-me, por exemplo, de que A Morte do Papa foi parcialmente inspirado na morte do Papa João Paulo I e no caso do hacker Rui Pinto —, mas foi um desafio para ti ter de obedecer a tantos constrangimentos da realidade no novo livro?

Foi. O primeiro terço do livro, em particular, foi muito difícil de construir. Sentia-me preso aos factos históricos, não queria fugir de nada que soubesse ter acontecido, pelo que senti muita dificuldade em preencher os espaços vazios. Tive de me esforçar imenso, em termos criativos, e passei por períodos de muitas dúvidas.
À medida que o livro foi prosseguindo acabei por me sentir um pouco mais à-vontade, mas foi necessário um período de adaptação, até pela variedade linguística que tive de utilizar: por exemplo, escrever diálogos contemporâneos e diálogos históricos não é a mesma coisa. E também tentei utilizar na narrativa palavras ou expressões mais antigas, de modo a que as pessoas sentissem aquela ambiência histórica.
Por tudo isto, o romance acabou por ter um progresso mais lento. Foi um bocadinho difícil. Mas foi melhorando com o tempo.
Também terá sido necessário, imagino, um longo período de pesquisa. Como foi o teu processo?

Foi baseado em livros. Eu não publico um original há quatro anos — o último foi A Noiva Judia — e no primeiro deles estive envolvido noutro projeto, mas a partir de 2023 comecei a trabalhar no livro que se tornaria O Rei Improvável e, durante dois anos, só tratei de pesquisa.
Li cerca de vinte livros, embora só dois ou três na íntegra. Nos restantes, fui especificamente investigar o período histórico que queria, bem como os anos que o antecederam e sucederam.
Comecei por tirar notas à mão. Depois, cheguei à conclusão que tinha tantas notas que nunca as conseguiria transportar todas para o digital, por isso comecei a escrevê-las diretamente no computador. Acabei com um documento com cerca de 250 páginas. Cada vez que regresso a ele, perco cerca de uma hora só à procura da informação que quero.
Quase daria para publicares esse documento como um novo livro.
Quase [risos].
Deixando claro que tens um estilo próprio, achas que a tua nova série está mais para As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, ou para Kingsbridge, de Ken Follett?
Acho que está algures no meio.
Já houve uma pessoa que leu o livro e fez algumas comparações com A Guerra dos Tronos, por causa da intriga e do clima político. Por ter uma ambiência política e por se passar num período relativamente crítico, o meu livro acaba por ter um ou outro ponto de contacto com esse. Mas não tem dragões.
Não escondo, contudo, que Ken Follett é uma grande referência. Aliás, o meu livro preferido é Os Pilares da Terra. Dito isto, não o estou a tentar imitar. Tenho o meu próprio registo e acho que as pessoas que me lerem o vão reconhecer.
A verdade é que não sou um escritor “renovado”. Sou o mesmo escritor da série Afonso Catalão e da trilogia Freelancer, apenas apareço aqui num género novo. Obviamente, algumas coisas são diferentes, mas acho que a minha voz se mantém.
Além de Ken Follett, que outras referências tens no mundo literário?
Nos romances históricos, a Isabel Machado.
Depois, gosto de Daniel Silva, que nos primeiros anos foi uma grande referência para mim, Craig Russell, um autor bastante desconhecido em Portugal, e Nicci French, uma dupla inglesa com thrillers psicológicos que normalmente consumo.
Recordas-te de algum livro recente que te tenha impressionado especialmente e nos queiras recomendar?

No ano passado li pouco, porque estava bastante aflito com O Rei Improvável.
O livro é publicado em janeiro de 2026, mas na realidade era para ter sido lançado em janeiro de 2025. Fui falando com a editora e adiando consecutivamente, porque não o tinha concluído e não queria apressar o processo, por isso acabei por estar mais concentrado na escrita.
No entanto, o livro que estou a ler atualmente chama-se O Mistério de Marceau Miller e é de um autor francês que ninguém sabe muito bem quem é. Julga-se que Marceau Miller é um pseudónimo e que o autor é alguém que está dentro do meio literário mas não quer mostrar a cara. É bastante interessante. Ainda não o li todo, mas recomendo.
Dizes que O Rei Improvável levou bastante tempo a terminar. O próximo da série vai ser mais rápido? Já o estás a escrever?
Já estou a trabalhar no livro, embora não propriamente a redigi-lo, e sim, será forçosamente mais rápido, até porque algumas das dificuldades iniciais acabaram por ser ultrapassadas durante a escrita d’O Rei Improvável. Desenvolvi mais método e mais ferramentas para lidar com os bloqueios que me surgiram no primeiro livro.
Ainda assim, não digo quando é que o novo livro vai sair. Diplomaticamente, colocámos no final do primeiro volume que o segundo será lançado em breve. É claro que “em breve” é relativo, mas acho que as pessoas não terão de esperar muito pela saída do segundo volume.
Quantos volumes tens planeados para a série?
O projeto inicial d’O Mosteiro é para três livros. Foi esse o acordo que fiz com a editora. É um projeto que decorre até 1521, que é o ano da morte de Dom Manuel, o principal rei durante a construção do Mosteiro dos Jerónimos. O que acontecerá daí para a frente está ainda no desconhecido.
Se eu sentir que as pessoas têm interesse pela história, que gostam dos livros, que aceitam bem esta minha incursão, estou disponível para a continuar. Até porque a construção do Mosteiro dos Jerónimos decorreu durante um século. Há muito mais para contar, não só relativamente às personagens principais, como os reis, mas em relação ao principal mestre de obras do Mosteiro dos Jerónimos, João de Castilho, que ainda aparece brevemente no primeiro livro mas que será mais desenvolvido no segundo.
O trabalho de João de Castilho continuou, depois, noutros monumentos portugueses, portanto há aqui muito material. O próprio período histórico, com a morte de Dom Sebastião, o domínio filipino e tudo o mais, tem muitas peripécias interessantes para contar. Por isso, serão três ou mais volumes. Logo se vê.
Não achas que esta tua nova série daria uma boa adaptação ao ecrã?
Daria. Portanto, se tiveres contactos… [risos]
Ou seja, se houver essa oportunidade, gostarias de adaptar a história a esse meio?
Claro que sim. Já tive a experiência de trabalhar num argumento, embora ainda não se tenha concretizado para o ecrã, por isso, se houver interesse de alguma produtora, será obviamente algo a explorar.
Entrevista: Tiago Matos
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