Entrevista ao portal SAPO sobre O Mosteiro, O Rei Improvável.
Por Jorge Andrade.
Escritor Nuno Nepomuceno e a origem política do Mosteiro dos Jerónimos: “Ao trazer crianças e mulheres para o centro da intriga tentei ser original”
Antes de ser um monumento nacional, o Mosteiro dos Jerónimos foi uma decisão política num tempo em que alianças familiares e herdeiros ainda crianças moldavam o poder. É a esse momento que Nuno Nepomuceno visita em “O Mosteiro – O Rei Improvável”, estreia na ficção histórica. Em entrevista, o autor aborda os desafios da mudança de registo, da fronteira entre facto e ficção, da construção de um D. João II menos linear do que o retrato tradicional e do papel das mulheres na política medieval.
No final do século XV, a política na Península Ibérica era decidida em círculos restritos, através de alianças familiares, sucessões disputadas e acordos negociados longe do escrutínio público. É a esse período, marcado por instabilidade e recomposição de poderes, que Nuno Nepomuceno regressa no seu novo livro, O Mosteiro – O Rei Improvável (edição Infinito Particular), obra que assinala a sua entrada na ficção histórica.
Conhecido pelos thrillers de conspiração e intriga política, Nepomuceno troca desta feita o ritmo acelerado do thriller contemporâneo por um tempo narrativo mais condicionado pela História e pelos seus limites documentais.
No cerne do presente título, mantém-se o interesse pelos mecanismos do poder, pelas decisões tomadas fora do espaço público e pelos efeitos que essas escolhas produzem ao longo do tempo. O que muda é o enquadramento.
O ponto de partida do romance coincide com um momento-chave da história portuguesa e ibérica, quando a instabilidade em Castela e a afirmação de D. João II em Portugal redefinem alianças e expõem fraturas internas. Ao invés de seguir a narrativa tradicional centrada nos grandes protagonistas, o livro acompanha personagens em formação e figuras que orbitam o poder, permitindo observar como decisões aparentemente menores acabam por produzir consequências duradouras.
Para o autor, este movimento implicou uma alteração profunda no modo de escrever. A ficção histórica exige outro ritmo, outro tipo de pesquisa e uma negociação constante entre imaginação e facto. A documentação impõe fronteiras claras e obriga a uma escrita mais contida, onde cada escolha narrativa tem de dialogar com o que é conhecido e verificável.
Nascido em 1978, formado em Matemática e controlador de tráfego aéreo de profissão, Nuno Nepomuceno construiu uma carreira literária assente em séries como Afonso Catalão.
O Mosteiro – O Rei Improvável inaugura agora um novo ciclo na sua obra. Pensado desde a origem como narrativa numa série de três livros, o projeto propõe uma leitura da política do século XV.
A escrita de O Mosteiro – O Rei Improvável implicou um ritmo, um tempo e uma estrutura diferentes dos seus livros anteriores. O que é que este livro o obrigou a reaprender enquanto escritor?
Creio que o tempo e o ambiente histórico acabaram por ser o maior desafio. Escrever sobre o século XV é muito diferente de o fazer acerca da sociedade contemporânea, porque é difícil adquirir uma noção do quotidiano. Quando se trabalha com factos históricos, como é o caso deste livro, somos forçados a seguir uma sequência de eventos que já se deram, tornando-se num desafio encontrar uma forma de preencher os espaços vazios entre eles.
De resto, a estrutura e o ritmo de um romance são ferramentas que fui desenvolvendo em livros anteriores e, que, talvez aqui, apareçam mais destacadas, por se tratar de um registo diferente. No entanto, eram características que já controlava.
Ao escrever um romance histórico, até onde pode ir a imaginação sem trair os factos conhecidos? Como gere essa fronteira no ato da escrita?
Considero que tenha de haver um equilíbrio, como em qualquer outro livro. Na minha opinião, um leitor busca emoção quando lê uma obra de ficção e, por vezes, isso não é possível se nos restringirmos a enumerar factos históricos, caracterizando as personagens de modo superficial.
Defendo que podem existir algumas liberdades, quer na forma como apresentamos as figuras históricas, especialmente aquelas sobre as quais há menos informação, mas não ao ponto de as descaracterizar completamente. Em termos narrativos, também é possível, mas isso deve ser exposto perante o leitor no fim do livro, de modo que este tenha conhecimento do que foi, ou não, verdade.
Diria que a melhor forma de manter este equilíbrio entre o que foi historicamente comprovado, ou não, será ter uma pesquisa bem fundamentada, permitindo ao escritor saber sempre que está a incorrer num desvio.
A crise sucessória que se gerou em Castela na década de 70 do século XV acabou por ter consequências em toda a Península Ibérica, fazendo com que Portugal se envolvesse numa guerra com o seu reino vizinho.
Vindo do thriller, é um autor que cultiva a intriga, a conspiração e a tensão narrativa. No contexto do século XV, estes elementos presentes no livro surgem como herança do seu percurso literário ou decorrem do próprio período histórico?
Surgiram naturalmente do período histórico. A crise sucessória que se gerou em Castela na década de 70 do século XV acabou por ter consequências em toda a Península Ibérica, fazendo com que Portugal se envolvesse numa guerra com o seu reino vizinho. Só este facto levou a uma conjuntura política extremamente complexa, com jogos de poder e negociações de parte a parte.
Por outro lado, em Portugal subiu ao trono um novo príncipe, Dom João II, cuja personalidade era drasticamente diferente do seu pai e antecessor, entrando rapidamente em choque com os poderes instituídos, e que depois levou às conjuras e mortes descritas no livro.
Diria que não fui buscar os elementos mais comuns ao meu trabalho anterior e os coloquei ao serviço do livro, mas que eles me encontraram, porque existiram historicamente.
A escrita de O Mosteiro – O Rei Improvável implica um planeamento narrativo a longo prazo, pensado desde o início como série. Em que medida essa lógica altera a forma como concebe cada livro, em comparação com os projetos que tinha desenvolvido até aqui?
De uma certa forma, acho que até beneficia a construção do enredo, porque possibilita um desenvolvimento maior das personagens. Considero que um livro escrito “à pressa”, especialmente um romance histórico, em que tudo acontece “a correr”, porque o autor está pressionado pelo número de páginas, sabe a pouco.
Separar em vários livros o plano que tinha para um só volume acabou por me dar maior liberdade e capacidade de desenvolvimento, que neste momento considero ser algo intrínseco à minha narrativa.
Ao escrever sobre um período tão estudado da História portuguesa, sentiu o peso das leituras prévias dos leitores ou escreveu à margem dessas expectativas?
Parti para este projeto de espírito aberto, por ser algo completamente novo para mim. Claro que as comparações serão sempre inevitáveis, mas a única pressão que senti foi o receio de escrever involuntariamente algo que estivesse historicamente incorreto. Tirando isto, tornou-se extremamente satisfatório poder escrever num registo ao qual ninguém me associava.
O Rei Improvável é principalmente um livro sobre sentimentos e emoções.
A História portuguesa tem sido frequentemente narrada num registo épico. Este livro procura afastar-se desse tom?
Sim. O Rei Improvável é principalmente um livro sobre sentimentos e emoções, que assenta na dinâmica entre as personagens principais e como as suas ações se tornaram catalisadoras para momentos importantes da nossa história. Na minha opinião, é um livro intimista, apesar de ter um ritmo narrativo elevado, porque o período histórico que atravessa foi muito conturbado.
Esta série nasce da história da construção do Mosteiro dos Jerónimos, acompanhada ao longo do tempo e de diferentes decisões políticas. O que lhe interessava observar nesse momento inicial, quando o Mosteiro ainda era apenas uma intenção e não o símbolo nacional que hoje conhecemos?
O Rei Improvável visa explicar os antecedentes da construção do Mosteiro dos Jerónimos. Aborda a infância do homem que o mandou erigir, embora não explique na íntegra as suas motivações, algo que está reservado para o segundo volume da série. Aqui o foco é o porquê, e não exatamente o modo como foi construído.
No centro do romance estão alianças políticas decididas através de casamentos e herdeiros ainda crianças. Porque escolheu começar esta história a partir dessas figuras frágeis, e não dos momentos mais espetaculares do poder régio?
Porque considero fascinantes as relações entre as personagens. O objetivo que estabeleci para o livro foi sempre o de caracterizar um tempo e não o de retratar a sua espetacularidade, porque, isso nós já conhecemos através do nosso percurso académico.
Ao trazer para o centro da intriga crianças e mulheres, numa sociedade tão marcada pelo poder do homem, como era a Idade Média tardia, tentei, de algum modo, ser original.
Afirmou em entrevistas anteriores que desconhecia a dimensão mais violenta e politicamente implacável de D. João II antes da investigação para este livro. Em que medida essa descoberta orientou o caminho traçado para este seu novo livro e a repensar a própria figura do rei ao longo da narrativa?
Diria que bastante. Esse lado mais negro de um dos reis mais celebrados da nossa história obrigou-me a ter outros cuidados com esta personagem, que não é um herói, nem muito menos um vilão. Vejo-o apenas como humano, com virtudes e defeitos, como todos nós, mas cujas ações mudaram o rumo do país. E isso foi algo que fui forçado a caracterizar no livro.
Esse lado mais negro de um dos reis mais celebrados da nossa história obrigou-me a ter outros cuidados com esta personagem, que não é um herói, nem muito menos um vilão.
A investigação para este livro levou-o a rever o lugar das mulheres na política do século XV. Que imagem dessa presença feminina emerge de O Mosteiro – O Rei Improvável?
Nesta época, a mulher era tratada pelo homem como sendo uma personagem secundária, que deveria dedicar-se à casa, ao recato e à família. No entanto, não deixaram de existir mulheres que, exercendo a sua influência, acabaram por conseguir manipular a sociedade, de modo a defender os seus interesses.
Acho que O Rei Improvável é um livro sobre mulheres poderosas e fortes, especialmente aquelas que de algum modo tocaram a vida de Dom Manuel I, mudando-a indubitavelmente.
Em conversas anteriores que manteve sobre este seu livro sublinhou o rigor da investigação histórica. Há, ainda assim, algo em O Mosteiro – O Rei Improvável que sabe poder incomodar historiadores, e que, enquanto romancista, decidiu assumir?
Creio que não. Acho que qualquer historiador compreende que um romancista deve ter alguma liberdade. Não creio que tenha exercido em demasia este meu “direito”. As opções criativas que tomei no livro têm um propósito, seja para compactar eventos narrativos, ou para utilizar determinadas características da personagem, de forma a dotar os factos históricos de mais emoção.
Os desvios que fiz à investigação histórica que antecedeu o livro estão documentados na nota histórica que é apresentada no fim e não são extensos. Tornam o livro mais interessante para o leitor, sem descaracterizar o legado da nossa história.
Nuno Nepomuceno nasceu em 1978, no Carvalhal, perto de Óbidos, onde viveu até aos 10 anos, passando depois a adolescência no Algarve. Licenciou-se em Matemática e deu aulas antes de ingressar, aos 23 anos, no curso de controlador de tráfego aéreo da NAV. Um ano depois iniciou funções na Ilha de São Miguel, nos Açores, onde acumulou o trabalho operacional com a formação de novos controladores. Desde os 34 anos trabalha em Lisboa, onde é também supervisor.
Começou a escrever em 2003. O Espião Português, o seu primeiro romance, foi inicialmente recusado pelas editoras e viria a ser distinguido, em 2012, com o Prémio Literário Note!. É autor das séries Freelancer e Afonso Catalão. O Mosteiro – O Rei Improvável assinala a sua estreia na ficção histórica.